segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cicatrizes (Por Bia Araujo) - Capítulo 2

Ao entrar na sala da segurança o Gerente da Loja já aguardava ansioso, andando de um lado para o outro, era um homem baixinho de meia idade, estava com um lenço nas mãos que usava constantemente para limpar a testa suada ele parou olhou para Margo e mandou que João fechasse a porta.
- Na minha loja, uma falsificadora na minha loja, você nunca mais porá os pés aqui.
Margo sem acreditar no que ouvia mais parecia uma estátua, trêmula, os olhos vidrados, um nó na garganta não permitia que emitisse qualquer som. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, não com ela, honesta trabalhadeira, não, só podia ser um pesadelo.
Olhando para ela com verdadeiro ódio o Gerente virou-se para João:
- Mande buscar suas roupas não quero que essa desclassificada saia daqui usando o uniforme da minha loja.
Saiu batendo a porta com força.
João fez sinal para que o segurança que o acampanhava fosse buscar as coisas de Margo e quando o mesmo saiu voltou-se para ela:
- É Margozinha, o mundo dá voltas né? Você tanto me esnobou e agora tá aqui na palma da minha mão, até que a polícia chegue teremos muito tempo e tenho certeza de que antes de você sair daqui nos entenderemos muito bem.
Mais do que suas palavras, o tom de voz e o sorriso debochado, fez com que Margo, por puro instinto desse um passo atrás.
O segurança voltou com suas roupas e sua bolsa e João mandou que ele saisse e ficasse de prontidão na porta ninguém poderia entrar antes que ele desse ordens.
João foi até a porta e girou a chave, colocou as roupas de Margo em cima da mesa e disse:
- Pronto Margozinha pode se trocar.
Sentou-se em uma cadeira colocando os pés sobre a mesa olhando-a fixamente enquanto se alisava sobre a calça.
Como ela continuasse parada ele levantou-se bufando e foi até ela dizendo em seu ouvido:
- É melhor fazer o que mando e rápido porque senão chamo toda a rapaziada para me ajudar a trocar sua roupa. Você duvida? Tenho certeza que eles iriam adorar colocar a mão neste corpinho maravilhoso.
Ela não duvidava sabia muito bem que ele seria capaz, assustada e tremendo começou a tirar a roupa, de cabeça baixa não olhava para seu colega de trabalho porque tinha certeza de que ele nem piscava.
De calcinha e soutien foi até a mesa pegar sua roupa mas João a interceptou:
- Nada disso Margozinha faltou o resto e é bom fazer isso logo que a polícia já está chegando.
A sala da segurança ficava no subsolo era, propositadamente, longe da loja sabia que estava a mercê de João e que o rapaz de prontidão atrás da porta era lacaio dele e caíra nas graças do chefe por executar todas as suas ordens sem questionar e entregar os colegas. Já tinha ouvido alguns casos de funcionárias da loja que tinham pedido demissão porque eram perseguidas por eles e, contavam, que Mariazinha tinha sido até molestada naquela mesma sala e, apesar de te-los denunciado ao Gerente o advogado da loja argumentou que ela é quem tinha dado confiança a eles e que tinha testemunhas de que ela fora sozinha até a sala da segurança.
Margo tinha a impressão de que não estava respirando, sua garganta e seus olhos estavam secos, seu corpo tremia queria falar mas não conseguia, sabia que não adiantava gritar porque ninguém ouviria.
Tirou a calcinha e o soutien e de cabeça baixa estendeu a mão para pegar sua roupa quando sentiu a mão de João ao redor de seu pulso. Ele estava em pé ao lado dela puxo-a até ele e começou a acariciar seu corpo enquanto dizia em seu ouvido com voz rouca:
- Fique quietinha, ah você é mais linda do que eu pensava, se você fizer ou falar qualquer coisa eu mando chamar toda a rapaziada.
Congelada Margo ficou imóvel ele jogou-a de bruços sobre a mesa e a possuiu, várias vezes violentamente, com puxões de cabelo, tapas e mordidas. Ela queria gritar, queria chorar, queria fazer alguma coisa mas não conseguia.
- Você é mais gostosa do que eu pensei, acho até que vou te fazer visitas íntimas na cadeia, agora pode vestir sua roupa que vou ligar para a polícia.
O comentário maldoso foi acompanhado de uma gargalhada.
Humilhada com os pensamentos tulmutuados e o corpo dolorido e marcado pela violência da qual acabara de ser vítima Margo vestiu-se mas continuou em pé.
Não sabe quanto tempo passou, não tinha noção de nada, quando de repente a porta abriu-se e João entrou acompanhado pela polícia, com as mãos algemadas a cabeça baixa foi arrastada até os fundos da loja onde a jogaram dentro de uma viatura.
Na delegacia foi colocada em uma sala sozinha e, só então, começou a prestar atenção em seus pensamentos: o que seria dela? quem acreditaria na sua história? tudo bem, seu marido e seus filhos com certeza ficariam do seu lado; mas como pagariam um advogado?
Não conseguia concatenar suas idéias, depois de horas a porta se abriu e um policial pegou-a pelo braço entrou em outra sala e a fez sentar em frente a uma mesa. Por detrás da mesa um homem com um olhar frio apresentou-se como o delegado, do outro lado da sala uma mulher estava sentada atrás de uma máquina de escrever, ele virou-se para Margo e foi falando:
- Desembucha, qual o endereço da gráfica?
Sem entender nada Margo olhava assustada e como não disse nada ele deu um soco na mesa, ela estremeceu, ele repetiu a pergunta.
- Eu não sei (respondeu ela com a voz trêmula e fraca)
De novo ele socou a mesa, levantou-se e começou a andar ao redor dela, abaixou-se e falou em seu ouvido, porém aos gritos:
- É melhor você colaborar, você tá muito encrencada nós já achamos isso na sua casa (e mostrou a sacola), vai querer piorar as coisas pra você? Desembucha.
- Eu encontrei...
- Encontrou o quê?
Margo contou tudo desde o dia em que achara a sacola, ele a interrompia, gritava com ela, socava a mesa, ria dela, a chamava de mentirosa, e sua voz falhava. Ao final mandou que a recolhecem porém, desta vez, a levaram para uma cela.
Quando ouviu o som da grade se fechando atrás de si levantou os olhos e percebeu os olhares antagônicos de suas colegas de celas. Se encolheu ali mesmo junto à grade no chão.
No dia seguinte vieram buscá-la, tinha visita, quando entrou na sala e viu Gil, atirou-se nos braços dele e só neste momento toda sua dor e humilhação reverteram-se em lágrimas, chorou por todas as horas de angústia que tinha passado e, entre o choro contou para seu homem tudo que estava passando dos abusos que sofrera nas mãos de João, dos policiais menos escrupulosos e, agora, até das presas. Quando acabou seu desabafo Gil estava com a expressão séria e o olhar frio afastou-se dela, tentou abraçá-lo mas ele a empurrou e com um tom de voz que ela nunca havia escutado disse:
- Eu não sou homem de mulher que tenha se deitado com outro, se ele agiu assim é porque você deu confiança, vadia (gritou) esqueça que eu existo, nunca mais quero saber de você e não se atreva a chegar perto dos meus filhos.
Deu-lhe as costas e saiu porta afora as pernas enfraqueceram ela caiu no chão encolheu-se abraçando os próprios joelhos e chorou. O guarda pegou seu braço e foi arrastando-a até a cela.
Alguns dias depois levaram Margo para um presídio feminino.
Um mês depois pouco restava da mulher deslumbrante que chegara ali, rasparam sua cabeça, seus lábios cortados, o rosto inchado, os olhos fundos, os ossos sobressalentes tamanha sua magreza fora as marcas de queimaduras de cigarros que tinha pelo corpo. Tudo isso em função dos mal tratos por parte das presas que não a deixavam dormir, faziam-na de empregada, derrubavam sua bandeja na hora da refeição, batiam nela e davam queixa às guardas que quase todos os dias a colocavam na solitária.
Sua única família era Gil e os filhos, os amigos que deixara na loja não a aceitariam mais e, em sua comunidade não poderia voltar pois, por sua causa, a polícia estivera lá, com certeza não seria bem vinda. Estava só e esquecida naquele inferno e, em silêncio, amargava as dores do abandono.
Quando a guarda veio lhe buscar avisando que tinha visita caminhou a seu lado com um quase sorriso nos lábios, será que Gil se arrependera? só podia ser ele que voltara para ajudá-la a provar sua inocência e sair dali. Gil sabia que ela era honesta e trabalhadora. Seu homem a conhecia bem e não a deixaria naquele lugar.
Com o coração aos pulos abriu a porta da sala onde era aguardada e entrou.
Continua...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Cicatrizes (Por Bia Araujo)

Margareth ou Margo, como era chamada por seu marido, ah... só de pensar em Gil sentia seu corpo tenso de tanta excitação, mas como ia dizendo Margo era uma negra alta, corpo escultural, que apesar de não frequentar mais a academia, o que fazia com obsessão, quando desfilava em sua escola de samba do coração, chamava a atenção por onde passava.
Naquele dia em especial estava radiante pois, Gil chegara cedo em casa, as crianças estavam na rua e seu homem sabia aproveitar bem os prazeres no corpo de uma mulher. Caminhando em sua sandália plataforma, jeans colado ao corpo e uma blusa de alcinha que ajudavam a valorizar mais ainda suas formas ela ia pensando em como fora boa a noite com seu homem, tivera sorte Gil era um amante sem igual, pai presente que trazia os filhos sob rédea curta é claro que tinha o problema de às vezes se deixar levar por algum rabo de saia, mas ela sabia que não era culpa dele afinal, um negro lindo como aquele, com mais de 1,90m de altura, seus 90kg de puro músculo e aquela boca em formato de coração, não passa despercebido em lugar algum. Ahhh... suspirou é tinha sorte mesmo.
Trabalhava em uma loja de departamentos, em um bairro classe média-alta, de segunda a sábado, ufa... que bom que já é sexta... entrando na loja cumprimentou o segurança:
- Bom dia João.
- Bom dia Margozinha do meu coração.
- Pára de graça João sou mulher casada respeita.
- Ah, Margozinha fica zangada não, pô tu é mulher de parar o trânsito nega quem dera ter uma assim lá em casa aliás, um dia você ainda vai ser minha.
Todo dia era a mesma coisa, sabia que João olhava para ela de forma diferente dos demais colegas, sabia que em suas "brincadeiras" falava a verdade, ele "babava" por ela até na frente da mulher porém, naquele dia sentira um mal estar com suas palavras e por isso foi em frente sem se dar o trabalho de responder.
Chegou no vestiário trocou de roupa e antes do horário já estava em seu posto, era responsável por um dos sanitários da loja, o pior de todos pois, ficava no primeiro piso ao lado da entrada. A loja tinha 3 andares, com 4 sanitários por andar, cliente nenhum poderia reclamar pois a loja oferecia toda uma variedade de produtos e todo conforto aos seus clientes.
O dia transcorreu tranquilamente até que perto do horário de fechamento da loja entrou no banheiro uma mulher bonita, bem vestida, carregando alguns pacotes, mas o que chamou a atenção de Margo foram dois detalhes; primeiro a mulher não tinha nenhum pacote de sua loja e segundo ela estava muito apressada, ao entrar quase que correndo dera uma trombada em Margo, por entre os dentes pediu desculpas e entrou no boxe. Novamente Margo sentira aquele mal estar porém, deu de ombros, afinal vai ver que a pobre coitada só estava apertada para ir ao banheiro, mal sabia Margo o que a aguardava.
Chegando na porta do sanitário viu um corre-corre e percebeu que haviam pego alguém no alarme em seguida lembrou-se da pressa da senhora que entrara e, quando viu João que era o chefe da segurança, passar acompanhando outra mulher chamou-o porém sua tentativa foi em vão pois por trás dela a senhora deu uma corrida e alcançou a calçada sumindo entre os transeuntes e por outro lado João fez-lhe sinal de que voltaria depois.
Margo respirou fundo afinal nada poderia fazer pois a senhora já ganhara a rua ao perceber que seus colegas se preparavam para fechar a loja deu um último retoque nos boxes e, quando preparava-se para sair percebeu uma bolsa em cima do balcão da pia. Aproximou-se e olhando dentro da sacola viu um envelope pardo apalpou e não consegui atinar o que estava em seu interior.
Respirou fundo, pegou suas coisas e a sacola e quando saiu do sanitário percebeu que a loja estava fechada e, obviamente, o achados e perdidos também e agora o que faria. Tentou encontrar João porém ele estava na delegacia formalizando a queixa contra a ladra que fora pega.
Pensou em seus filhos e seu homem que a esperava sentiu um calor gostoso e decidiu que, provavelmente, a senhora voltaria no dia seguinte para reclamar seu pacote, por isso não perderia mais tempo, trocou de roupa e foi pra casa levando a sacola.
Sábado apesar da tranquilidade do dia, Margo sente seu coração apertado, nada da dona da sacola voltar e já não podia mais entregar no achados e perdidos pois, tinha certeza, de que seria chamada a atenção por não ter feito isso no dia anterior e, não podia correr o risco de perder o emprego, o gerente é muito severo no que diz respeito a honestidade e, claro ele não acreditaria que o setor onde deveria entregar a sacola já estava fechado quando ela a encontrou.
O final de semana é tranquilo para Margo, apesar de Gil ter chegado no sábado com a triste notícia de sua demissão, claro que injusta, afinal Gil era trabalhador, honesto, não faltava um dia e nem chegava atrasado, simplesmente porque o patrão encrencara com ele achando que Gil estava interessado em sua mulher, agora vejam só se Gil iria querer alguma coisa com aquela branquela sem graça, é claro que ela devia estar dando em cima dele e o marido, como todo corno, não via isso. Tadinho do Gil sempre tão perseguido até parece que tem culpa de ser tão bonito, viril e sarado ele ficava até mais tarde no trabalho só para fechar a loja para a branquela, que injustiça.
Passam-se alguns dias e nada da dona da sacola aparecer. Margo deixa a sacola em seu armário em casa, afinal de que adianta ficar carregando aquele peso morto.
Margo e Gil tinham três filhos, Vanessa com 14 anos, estudiosa, mulata bonita que herdara a beleza da mãe, ajudava nos afazeres domésticos, vaidosa já namorava a algum tempo Thiago, o garoto mais cobiçado da comunidade. Júnior, mesmas características do pai, contava com seus 13 anos, não queria nada com estudos, ganhava alguns trocados ajudando a carregar compras na mercearia do Seu Joaquim e Leandro, com seus 5 anos, ficava aos cuidados dos irmãos.
Algumas semanas passaram e, diante do desemprego de Gil, a situação financeira da família estava muito apertada, ao chegar a noite em casa em um dia de semana Margo encontrou Leandro com febre alta, depois de fazer de tudo para baixar a febre e não conseguir levou ao hospital municipal mais próximo. O diagnóstico não foi nada animador, Leandro estava com pneumonia dupla e precisava de remédios caros, excelente alimentação e tudo na hora certa.
Margo voltou pra casa com o filho sem saber o que faria, não tinha mais dinheiro, Gil ficara menos de três meses no emprego e ela já tinha estourado sua cota de vales no mês.
Colocou Leandro na cama, sentou-se na sala tentando encontrar uma saída, sem nenhum motivo lembrou-se da sacola que estava do mesmo jeito no fundo de seu guarda-roupas. Abriu o envelope e quase teve um enfarto quando deu de cara com vários maços de notas de R$ 50,00 (cinquenta reais). Ficou tentando concatenar as idéias, contaria pra Gil o que havia encontrado? melhor não, pegaria apenas o suficiente para comprar os remédios e alimentação adequada para Leandro e no fim do mês colocaria o dinheiro no lugar. Não podia ficar com aquilo não lhe pertencia. Daria um jeito de assim que devolvesse o dinheiro colocar aquele pacote em qualquer lugar na loja para que o dono recebesse de volta.
Assim Margo no dia seguinte foi à farmácia, à mercearia e antes de ir pro trabalho deixou tudo pronto para Leandro em casa com instruções para que seus irmãos o medicassem e alimentassem na hora certa.
Levou uma das notas para o trabalho pois tinha visto um vestido lindo, de R$ 49,90, e como tinha o aniversário de 15 anos da filha da Suzi, na quadra da escola compraria, ia devolver mesmo o dinheiro, tinha certeza de pegar algumas notas emprestadas não faria mal a ninguém.
Chegou para o trabalho um pouco atrasada mas, diante da receita médica de Leandro, o Gerente abonou seu atraso.
Na hora de almoço, ligou para casa para saber notícias de Leandro, estava sem febre, tomou os remédios no horário e tinha comido pouco mas, pelo menos, comeu alguma coisa. Mais tranquila, apesar da noite mal dormida, Margo almoçou e feliz da vida foi experimentar o vestido, ficou lindo satisfeita com o que via no espelho, foi ao caixa pagar. A caixa registrou, pegou o dinheiro das mãos de Margo, olhou de um lado, olhou do outro, devolveu a nota pra Margo e pediu que aguardasse pois tinha dado um problema no caixa.
Margo ficou aguardando enquanto conversava, discretamente, com a balconista, distraída não viu nada de anormal até que João falou em seu ouvido para acompanhá-lo. Levou um susto com a proximidade e mais ainda com o tom de voz de João. Olhou em volta querendo entender mas as pessoas não pareciam estar percebendo nada. Com as pernas trêmulas e, os pensamentos mais contraditórios, foi caminhando bem devagar para a sala da segurança.
Continua ...