A palidez de Elisa assustou Samira que com a voz trêmula e os olhos rasos d'água pediu:
- Por favor me ajude.
- Claro Elisa venha comigo.
- Não aqui não, por favor, estamos muito perto (enquanto falava Elisa olhava assustada para trás)
Samira percebeu que ali estava bem mais que uma simples briga de paqueras, sim, talvez ali estivesse a sua oportunidade de por as mãos no safado do João.
- Tudo bem Elisa pegue um táxi e me espere no Parque dentro do táxi. Dizendo isso Samira correu e entrou no ônibus quando chegou ao parque Elisa já a esperava entrou no táxi e pediu ao motorista para deixá-las em seu apartamento.
Fez com que Elisa entrasse e enquanto servia uma bebida discretamente colocou sua bolsa em cima da mesinha de centro com o gravador ligado.
Sentou-se em frente à outra e perguntou:
- Tudo bem Elisa aqui ninguém pode nos ver ou ouvir respire fundo e me conte o que te assustou tanto.
- Você não vai acreditar, ninguém vai acreditar em mim.
- Elisa por favor eu acredito em você.
Respirando com dificuldade e com as palavras saindo aos borbotões ela despejou:
- Sabe hoje quando você me encontrou saindo da sala da segurança?
- Sim.
- Eu fui até lá porque o Marcos disse que o João estava me chamando, que era urgente, que ele mesmo olharia o sanitário prá mim.
Acanhada Elisa baixou os olhos e continuou com a voz embargada:
- Eu to gostando do João sabe? É de verdade é amor mesmo sabe?
- Respire fundo Elisa.
- Pois é quando cheguei lá o João não estava então fiquei chateada e voltei só que quando eu entrei no banheiro ele tava com uma bolsa em cima da bancada aberta e ela estava cheia de dinheiro, muitas notas de 20 e 50 reais, eu nunca vi tanto dinheiro junto.
Samira teve que prender a respiração para que Elisa não percebesse sua satisfação.
- E então Elisa, como posso te ajudar?
- Quando ele me viu me imprensou na parede apertando minha garganta até eu ficar sem fôlego e disse que se eu contasse prá alguém o que eu tinha visto ali esse ia ser meu fim e da minha família.
Elisa voltou a chorar soluçando desesperadamente.
- Você entende que só há um jeito de você proteger a você e a sua família não é? Perguntou Samira.
- Eu vou fugir, por isso preciso da sua ajudea olha você me empresta o dinheiro e eu assino minha demissão aí você recebe o dinheiro e pode ficar com tudo, por favor, eu não tenho mais ninguém me ajude.
- Elisa você tem que denunciar o João.
- Não, se você não quer me ajudar tudo bem, mas isso nunca.
- Mas Elisa você sabe que dinheiro é aquele não sabe?
- Sei Samira é o tal do dinheiro falso que ele armou prá cima da Margo coitadinha.
- Então Elisa você vai deixar a Margo continuar presa e vai fugir por causa de um bandido? Porque é isso que o João é: um bandido.
- Samira eu não posso eu to morrendo de medo você precisava ver os olhos dele enquanto apertava minha garganta, Samira ele tava gostando de fazer aquilo.
- Elisa a polícia pode te proteger, eu mesma posso te arranjar um emprego em outra Cidade onde ninguém nunca mais vai te achar.
- Não eu não posso fazer isso, já que você não vai me ajudar eu vou embora.
- Por favor Elisa você pode ficar aqui até o julgamento, eu te ajudo no que você precisar, posso até te levar prá fora do País ele nunca mais te veria.
- Não, Samira eu to morrendo de medo, eu não vou fazer isso, sei que ele é um bandido, sei que Margo é inocente, mas eu to com muito medo.
- Tá bom Elisa, fica aqui esta noite, amanhã pela manhã eu vou até o caixa eletrônico e tiro o dinheiro prá você ir embora e, claro, não vou ficar com seu dinheiro, depois você me liga e mando o dinheiro da sua demissão prá onde você estiver.
- Eu prefiro ir prá casa e amanhã eu venho com minhas coisas e daqui eu vou embora direto.
- Tudo bem então vou levar você em casa.
- Nossa agora que você falou me diz Samira: como você consegue ter um apartamento deste e um carro com o nosso salário.
- Isso é outra história depois te conto, Elisa fica aqui hoje é mais seguro.
- Não tem perigo não, amanhã cedinho estarei aqui.
- Você é quem manda eu ainda penso que você não deveria ir mas já vi que não adianta insistir.
- Obrigada Samira, muito obrigada mesmo.
Às nove da manhã do dia seguinte, Samira está andando de um lado para o outro de sua sala, sentado no sofá está Belisário com o pequeno gravador nas mãos.
- Ótimo trabalho sócia, você é demais vale por dez!
- A Belisário estou tão preocupada já era prá ela estar aqui, o celular fora de área.
- Vai ver ela desistiu de fugir.
- Não, ela tava muito apavorada, ontem quando a deixei em casa eu vi o medo nos olhos dela.
- Sabe lá fizeram as pazes.
- Não, minha intuição não falha, alguma coisa muito séria aconteceu com Elisa.
- Samira vamos até a casa dela então.
Chegando na esquina da rua onde Elisa mora havia uma pequena multidão, Samira desce do carro às pressas e abrindo caminho chegou até o corpo estendido no chão. Após o susto abaixou e levantou o plástico que o cobria. Belisário puxou seu braço e levou-a até o carro.
Ela respirou profundamente e com os olhos marejados disse:
- Ela está com a mesma roupa e sapatos de ontem.
- Samira eu sinto muito, muito mesmo mas você sabe o que tudo isso significa pra nós não sabe?
- Sei sim, nossa missão acabou, agora é colocar Marcos e João em salas separadas e qualquer delegado consegue que eles se acusem. Ontem depois que voltei prá casa eu transcrevi o depoimento da Elisa agora é so fingir uma assinatura e dizer que ela esteve na delegacia ontem antes de ir prá casa.
- Isso mesmo minha amiga então vamos terminar nosso trabalho.
Belisário ligou o carro enquanto Samira, pelo telefone, pedia rapidez no recolhimento do corpo. Em seguida ligou para a funerária e pediu a um amigo que cuidasse do enterro que ela fazia questão de custear e de comparecer.
Com os depoimentos de Marcos e Margo e a fita gravada de Elisa foi fácil condenar João por todos os seus crimes entre eles de falsificação de moeda nacional, perjúrio, homicídio doloso, estupro e agressões, somando todas as penas ele ficaria trancafiado por, no mínimo, 25 anos e sem direito a condicional.
Quando o portão do presídio fechou atrás de si Margo olhou para os lados e sem saber o que fazer, nem pra onde ir, sentou ali mesmo no meio fio. De repente sentiu que alguém sentava ao seu lado e a envolvia num abraço oferecendo-lhe o ombro onde ela se apoiou e deu curso às lágrimas.
- Desculpa doutora, desculpa.
- Por favor não tenho nada que desculpar.
- Eu já tomei muito o tempo da doutora e sei que a senhora é muito ocupada eu vou procurar meu rumo, doutora muito obrigada, muito obrigada mesmo.
- Você vai prá onde Margo?
- Não precisa se preocupar não doutora, eu vou procurar umas amigas.
- Talvez você possa me fazer um favor então.
- Eu?! Doutora o que eu posso fazer pela Senhora?
- É que eu to precisando de alguém prá me ajudar.
Margo levantou os olhos para Samira e, entre lágrimas, perguntou:
- Ajudar a doutora no que?
- Se eu te disser você não vai acreditar é melhor eu te mostrar.
- Que isso doutora eu não acreditar na senhora?
- Margo você confia em mim?
- Que pergunta doutora, claro que confio.
- Então vem comigo por favor.
Samira levantou-se e levou Margo até o carro. Durante o trajeto Samira entregou a Margo um envelope com fotos atuais dos filhos e, apertando sua mão garantiu que em breve ela teria os filhos a seu lado.
Quando pararam no shopping Margo saiu do carro toda envergonhada, Samira abraçou-a e levou-a até o Centro de Estética, duas horas depois, se reencontraram na sala de espera. Margo estava com uma leve maquiagem, os cabelos cortados e bem hidratados, unhas feitas. Um sorriso acanhado nos lábios abraçou Samira agradecendo.
Entraram em uma botique e lá, depois de muita insistência e com a ajuda de Samira, Margo escolheu um vestido florido, scarpin bege, uma bolsa combinando e lingerie adequada.
Ao cair da noite estavam sentadas na sala do apartamento de Samira conversando e fazendo planos para o futuro. Samira conseguira convencê-la a aceitar um emprego ali em sua casa. Margo trabalharia de dia e a noite faria um supletivo para se preparar para a faculdade o que, Samira não abriria mão, afinal quem a substituiria em suas tão sonhadas férias.
Quando a campainha tocou Samira pediu a Margo que atendesse à porta enquanto iria retocar o batom. Ao abrir a porta Margo encontra Belisário com um bouquet de rosas vermelhas e uma garrafa de vinho nas mãos. Ao mesmo tempo ouve a porta da entrada de serviço bater.
Belisário estende o bouquet e ela muito acanhada com a cabeça baixa agradece.
Samira trazia um leve sorriso nos lábios ao entrar no carro, há muito percebera o brilhos nos olhos dos dois, agora tinha a certeza de que seu amigo encontrara uma grande mulher.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
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