Ao entrar na sala, esbaforida, Margo quase esbarrou em um homem que nunca tinha visto antes. Belisário era um homem de meia idade, alto, forte, pele clara de cabelos lisos em um tom castanho mas com as têmporas já grisalhas, tinha os olhos verdes, poderia se dizer que era um belo exemplar de homem.
Olhando a mulher parada à sua frente Belisário pode observar a franqueza do olhar que, no momento, exprimiam a decepção em vê-lo, estendeu a mão e apresentou-se:
- Muito prazer Senhora Margo, sou Belisário, fui designado pela defensoria pública para representá-la no Tribunal.
- Prazer (respondeu Margo com a voz embargada pela tristeza e cabisbaixa).
- Por favor vamos sentar (pediu Belisário mostrando as cadeiras).
Esperando que Margo se acomodasse olhou-a discretamente e, não pode deixar de comparar a figura que estava à sua frente com as fotos que compunham o processo, notou as marcas dos maltratos e, já no íntimo, sabia que estava diante de uma pessoa inocente.
Em seus trinta anos de advocacia, desde a época do estágio, Belisário tinha uma astúcia natural, algo que beirava o misticismo, nunca havia se enganado quanto a um cliente. Diante das marcas que Margo exibia em seu corpo e, seu olhar entre triste e assustado, Belisário já tinha certeza de que ela não se corrompera. Tinha um caso difícil pela frente seria uma luta árdua mas, era otimista, encontraria uma saída. Virou-se para Margo:
- Preciso que a senhora me conte tudo, desde o início.
- Prá que doutor? Já contei prá tanta gente e de que adiantou?
- Já que é assim não posso obrigá-la a falar mas quero que saiba que seu caso é difícil e sem a sua ajuda ficará quase impossível ajudá-la. Diante do silêncio de Margo, Belisário, já acostumado com este tipo de situação, foi juntando seus papéis lentamente e lançou seu trunfo:
- É uma pena que não queira cooperar seus filhos estão esperando notícias.
De pronto Margo levantou para ele seus olhos já úmidos de emoção e perguntou:
- Como estão doutor?
- Diante das circunstâncias até que estão bem, desculpe mas precisei de alguns documentos para completar o processo.
- Tudo bem doutor, o que preciso fazer? Quero saber dos meus filhos, Leandro já está bem da pneumonia? Vanessa ela ainda tá namorando o Thiago? E Júnior continua ajudando na venda do seu Joaquim? E... e... e Gil doutor como está ele?
- Estão todos bem Margo, Leandro está ótimo, seus filhos são lindos e muito bem educados, meus parabéns. Agora conte-me tudo desde o princípio, não omita nenhum detalhe por mais insignificante que seja, vou gravar nossa conversa.
Belisário ligou o gravador e Margo começou seu relato, depois de quase uma hora ouvindo Margo ele já percebera que nos momentos de mais tensão, provavelmente quando sofrera abusos e maltratos, ela engasgara e torcera as mãos tentendo disfarçar o nervosismo. Nesses momentos Belisário pedira que não escondesse nada mas Margo estava receosa ele tinha consciência de que para ela seria difícil abrir-se tanto com um homem.
Caminhando para seu carro Belisário repassava mentalmente sua entrevista com Margo, estava mais convencido ainda de sua inocência, não deixara transparecer para não criar expectativas mas notara que ao se despedir uma luz diferente brilhava em seu olhar contudo, precisava saber dos detalhes que ela, por puro pudor, omitira. Entrou em seu carro e sacando o celular ligou para o escritório, pediu que sua sócia chegasse mais cedo na manhã seguinte, era isso, com uma mulher Margo com certeza se abriria mais e, disso não duvidava, Samira sempre conseguia o que queria.
Samira era uma negra com 1.70 de altura, corpo bem delineado pelas horas de musculação, cabelos curtos e olhos grandes e negros adornados com cílios espessos e um sorriso cativante, já há alguns anos Belisário contava com sua inteligência e malícia na defesa dos diversos processos que lhe eram confiados. Fizera uma boa escolha na sociedade tinha por Samira verdadeira amizade e confiança, admirava-a pela coragem e perseverança.
No dia seguinte em seu escritório Belisário repassou para Samira os detalhes de sua preocupação com o caso de Margo. Depois de ouvi-lo Samira pegou todo o processo e a fita gravada e sentou-se em frente ao computador.
Ao ser chamada para mais uma visita Margo dirigiu-se para a sala calmamente, agora tinha certeza, pelas respostas evasivas do Doutor Belisário, que Gil não a perdoara. Entrando na sala deparou-se com uma mulher linda. Samira estendeu a mão para Margo apresentando-se e convidou-a a se sentar. Depois de acomodadas Samira começou:
- Poxa, armaram feio prá você né?
- Eu fui boba, jamais deveria ter mexido no que não me pertencia. Respondeu Margo timidamente.
- Você sabe como eu me tornei sócia do Belisário?
- Não, não sei.
- Vou te contar...
E, assim, Samira começou a contar sua história. Uns quinze anos antes ela trabalhava como empregada doméstica em uma mansão, novinha e linda logo chamou a atenção do patrão e, certa noite após uma festança ele que havia bebido demais foi até seu quarto e a estuprou violentamente. Samira engravidara e, ao procurar o patrão para pedir ajuda ele simplesmente jogou-a na rua, sem um tostão, dizendo que jamais seria pai de um "neguinho". Sem família, sem ter para onde ir, Samira perambulou pelas ruas e depois de alguns dias sem comida e água, tendo seus últimos pertences roubados, sentou-se em uma escadaria pois lhe faltava forças. O segurança do lugar veio expulsá-la dizendo que ali não era lugar para mendigos, ele a jogou na calçada e Belisário que vinha descendo a escada levantou-a do chão, subiu os degraus e mandou que o segurança lhe pedisse desculpas.
Como estava saindo para ir ao fórum para uma audiência, Belisário colocou-a sentada na cadeira do segurança e ligou para a assistente dele mandando que ela viesse buscar Samira. Quando voltou Belisário ouviu toda sua história e, compadecendo dela, levou Samira para sua casa. Lá ela trabalhou como sua doméstica, ele abriu um processo contra o seu patrão obrigando-o a pagar sua rescisão e assinar sua carteira. Belisário a inscreveu num curso noturno e, quando ela concluiu o 2º Grau, fez com que fizesse o vestibular. É claro que, Samira tomada de total admiração pelo seu patrão, escolheu o direito.
- E aqui estou eu. Concluiu Samira com aquele sorriso encantador.
- E o bebê? Pergunta Margo.
- Aborto espontâneo. Dias sem água e sem comida, os maltratos nas ruas, a falta de esperança, quem sabe?
- Sinto muito.
- Tudo bem, Deus sabe o que faz. Mas e você? Nossa pelo que estou vendo tem sofrido um bocado. Disse Samira olhando para as cicatrizes nos braços de Margo.
Diante do comentário Margo abaixou a cabeça aproveitando o momento Samira entrou direto no assunto:
- Vou ligar o gravador Margo preciso que você conte prá mim o que não teve coragem de contar para Belisário. Por favor confie em mim, todo e qualquer detalhe é importante e, com a sua colaboração fica mais fácil ajudá-la. Sem contar que você não tem mais nada a perder não é mesmo?
Margo com a voz embargada e os olhos marejados contou todos os abusos pelos quais havia passado, não ocultou nada, finalizou seu relato com a reação do marido e neste momento chorou toda a sua dor e seu desespero. Samira aguardou em silêncio respeitando o martírio de sua cliente e, quando esta se acalmou, concluiu:
- Nós vamos fazer de tudo para tirá-la daqui, mantenha a calma e continue agindo como tem feito até agora. Belisário acredita em sua inocência e agora vendo-a pessoalmente concordo com ele mas, infelizmente, nossa opinião de nada vale. Vai ser um grande desafio mas vamos encontrar um jeito.
Dizendo isso despediu-se de Margo prometendo que traria notícias de seus filhos.
Sentada em seu carro Samira repassava o processo em sua memória, algo não combinava, porque alguém deixaria aquela sacola em uma loja? Sabia que faltava algum detalhe e, com certeza, este detalhe a levaria a desvendar todo o problema. Depois de muito pensar disse para si mesma: "é isso", ligou para Belisário e combinou de comerem juntos uma pizza pois tinham muito que conversar e queria que ele ouvisse a fita.
Depois de alguns dias Samira entra na loja de Departamentos onde Margo trabalhara como a nova Encarregada da Limpeza, cargo que fora fácil conseguir com apenas alguns telefonemas, afinal ela e Belisário eram muito bem relacionados.
Neste cargo teria liberdade para acessar todas as dependências da loja e, ao mesmo tempo, vigiar todo o movimento. Já haviam visto as câmeras de gravação do dia em que Margo encontrara a sacola mas, justamente, aquela câmera estava com problemas e, por isso a única pista da qual dispunham era um retrato falado desenhado com a ajuda de Margo pois, até mesmo o reconhecimento através de fotos de pessoas fichadas não obtivera êxito.
João, como não podia deixar de ser, logo se engraçou por Samira o que ela, com muito cuidado, começou a alimentar. Depois de algum tempo, como já era de se esperar, Samira já era confidente de várias meninas, conseguiu chegar à funcionária que perdera o emprego depois de ter sido violentada por João e com muito tato convenceu-a a depor a favor de Margo. Era pouco mas melhor do que tinha em mãos até o momento.
Já sabia os postos e nomes de todos da segurança, percebera que antes de chegar haviam designado para o sanitário que Margo tomara conta a mais bonita das meninas e, que a pobrezinha da Eliza, ingênua que era, faltava pouco para cair nas lábias de João porém, não podia alterar nada precisava que sua presença passasse despercebida. Não podia chamar mais atenção do que o necessário e assim apenas observava.
Certo dia percebera no horário de almoço João de cochichos com Elisa, ela se derretia e sorria entre timida e vaidosa com os elogios que recebia. Viu João passar-lhe um papelzinho e, resolveu que não perderia Elisa de vista. Faltando poucos minutos para o final do expediente Elisa saiu sorrateiramente do sanitário e encaminhou-se para a escada que levava à sala da segurança. Pronta para seguir Elisa percebeu quando uma mulher veio direto da rua e entrou no sanitário. Atravessou o salão a passos largos e já ia alcançando o sanitário quando esbarrou em alguém. Ia dizer alguma coisa quando percebeu que a mulher já ganhara a rua. Respirou fundo e virou-se dando de cara com o capacho de João, Marcos era esse seu nome, disfarçando sorriu e pediu desculpas. Entrou no sanitário deu uma geral mas nada encontrou saiu muito contrariada era óbvio que Marcos havia esbarrado nela de propósito, mas porque?, não podia nem mesmo flagrar Elisa pois, agora precisava dela para descobrir o que estava acontecendo ali.
Fecharam a loja e Samira encaminhou-se para o ponto de ônibus, a noite já caira, e apressada ela percorreu todo o percurso e já estava quase alcançando o ponto quando seguraram seu braço, no susto virou-se e, para sua surpresa, Elisa estava parada bem à sua frente.
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